04/03/2022 - 1:40
Warren Buffett era, na terça-feira (2), o quinto cara mais rico do planeta. Dono de uma fortuna de US$ 116 bilhões. Estava atrás de quatro nomes igualmente reluzentes. Elon Musk (Tesla), Jeff Bezos (Amazon), Bernard Arnault (LVMH) e Bill Gates (Microsoft). No sábado (26), sua Berkshire Hathaway publicou os números referentes ao ano passado. Eu adoro ver a carta de resultados das grandes empresas de capital aberto. Nelas há muito conhecimento. Não apenas os números falam. Seus comandantes falam. Dão lições de negócios. E de postura. Falam de erros, de acertos. Algumas vezes, falam abertamente. Muitas vezes, falam nas entrelinhas. Mas as lições estão sempre lá. No caso da companhia liderada por Buffett, o documento de 143 páginas começa com todos os ganhos por ação que ela teve desde 1965, comparados à performance do S&P 500 (esta com dividendos incluídos). Durante 57 anos, a Berkshire ficou no positivo 46 vezes. Na média anual, deu retorno de 20,1%, o dobro em relação aos 10,5% da S&P 500. No acumulado fez impressionantes 3.641.613% — contra os muito bons 30.209% do principal índice da bolsa nova-iorquina.
Lição 1. Confiança
Buffett começa a mensagem-testemunho em nome dele e do sócio de longa data, o VP e vice-chairman da Berkshire, Charlie Munger. “Somos honrados por sua confiança”, disse. Para um cara que tem US$ 116 bilhões parece indefectível que nunca usará nada de graça. Nem palavras. Por esse motivo escreveu “confiança”. Nada se permite sem ela. Numa relação entre pessoas, entre empresas, entre consumidores e marcas ou entre governos ela é a plataforma inevitável. Nada existirá sem que haja confiança.
Lição 2. Impostos… Ah, os impostos
Ele também lembrou que no meio dos anos 60 a Berkshire recolhia US$ 100 por dia equivalentes a impostos. Hoje, o número bate em US$ 9 milhões por dia. “Mas para ser justo com nosso parceiro governamental, nossos acionistas devem reconhecer o fato de que a Berkshire prosperou porque opera nos Estados Unidos.” Ele não citou o Brasil. Mas senti uma facada em meus tributos. Aqui você deve para a Receita e para a justiça paralela da Procuradoria da Receita. Por isso as lideranças de multinacionais instaladas no Brasil não conseguem justificar a suas matrizes como os departamentos contábil e jurídico têm mais gente que as áreas de inovação, de P&D (Pesquisa & Desenvolvimento).
Lição 3. Erros… Ah, os erros
Não é qualquer pessoa que numa carta aberta a seus acionistas diz: “Eu cometo muitos erros”. Só isso já é uma lição de vida.
Lição 4. Legados
Para o megainvestidor, “o objetivo é ter investimentos significativos em negócios com durabilidade, vantagens econômicas e um CEO de primeira classe.” E acrescenta: “Charlie e eu não somos catadores de ações; somos catadores de negócios.” Na entrelinha dessa abordagem está algo que divide mundos: pensar em legados, no que é duradouro. Isso tem a ver com números, mas acima de tudo tem a ver com pessoas. Por isso Buffett insiste na expressão “CEOs de primeira classe”. São os líderes raros, os que decidem os jogos.
Lição 5. O papel do ensinar (crianças)
Buffett afirma que seu público mais difícil foi a turma da quinta série do neto dele. Segundo diz, as crianças de 11 anos estavam ignorando o que falava até que mencionou a Coca-Cola e sua famosa fórmula secreta. “Segredos”, disse, são poderosos com crianças. Ele ama passar o que sabe. “Ensinar, como escrever, me ajudou a desenvolver e esclarecer meus próprios pensamentos.” O empreendedor bilionário conta uma história creditada a seu parceiro de vida, Charlie Munger, que a chama de Efeito Orangotango: ‘Se você se sentar com um orangotango e explicar cuidadosamente a ele uma de suas ideias queridas, você pode deixar para trás um primata intrigado, mas você mesmo sairá pensando com mais clareza’.
Lição 6. O papel do ensinar (jovens adultos)
Ao falar com estudantes do ensino superior ele diz que os aconselha a procurar empregos nas áreas que escolheriam se não tivessem de pensar em dinheiro. “As realidades econômicas, reconheço, podem interferir na procura. Mesmo assim, peço a eles que nunca desistam da busca, pois quando encontrarem esse tipo de trabalho eles não estarão mais ‘trabalhando’”, disse. “Charlie e eu seguimos esse percurso libertador. Começamos como empregados de meio período com tarefas chatas e salário baixo… até chegar aqui, em que ‘trabalhamos’ com pessoas de quem gostamos e em quem confiamos.”
Por todos os ensinamentos, muito obrigado!, tio Buffett.
Edson Rossi é redator-chefe da DINHEIRO.