Ser o primeiro significa ter competidores na cola o tempo todo, esperando um vacilo ou simplesmente sendo ultrapassado por alguém performando melhor. No mundo dos smartphones, a Samsung atualmente é a fazedora de poeira para a fila logo atrás — embora, dependendo do dia, coma um pouco da Apple, que vira e mexe passa alguns pontos percentuais na frente. Mas no acumulado de 2021, a Samsung ganha. O problema nem é tanto a americana da maçã, mas sim as marcas chinesas, que nos últimos anos tentam o salto quântico com aparelhos mais afinados em qualidade e preço. O que deixariam para trás na guerra contra a Samsung poderia ser descrito como bobagens, como carregamento sem wireless (basta plugar o celular, não?), peso (os chineses não chegam a ser uma bigorna) ou visor só com 90hz (tem smartTV que não tem isso) e uso de plástico na carcaça (na verdade isso é mais ecológico, o que vira ponto a favor dos chineses). Ou seja, se o comprador quer economizar um pouco (ou muito) ou quer um segundo smartphone, pode optar finalmente por um chinês da Xiaomi, Oppo, Vivo, Huawei, Realme, entre outras marcas.

Segundo a TrendForce, que provê inteligência de mercado, a sul-coreana Samsung em 2022 deve vender 276 milhões de aparelhos, um crescimento anual de 1,1%. Ela percebeu o movimento chinês e remodelou seus smartphones de entrada e médio valor para se tornarem mais competitivos no quesito preço. Enquanto isso, os chineses vêm copiando as especificações dos celulares tidos como de melhor qualidade e usando a mesma arma: o preço. Nessa guerra afável, quase nunca uma fabricante fala mal da outra, oficialmente — OK, o antigo CEO da divisão de mobile da Samsung, DJ Koh, disse, em 2019, que a empresa seria a fabricante líder pelos próximos dez anos, algo não tão humilde, já que vem alternando a posição com a Apple. As duas, no entanto, vão ver seu market share sofrer uma média ou grande corrosão, não há escapatória. Somente o público muito fiel e com poder aquisitivo intocado é que não experimentará os quase 40% do restante do mercado, que inclui até a ex-americana Motorola, adquirida pelos chineses da Lenovo, que está atrás de várias chinesas no mercado mundial, com 2,91% desse bolo em 2021, mas tem respeitável segunda colocação no Brasil. “Nossa estratégia não é focada no que os concorrentes fazem, mas em apresentar inovações significativas para os mais diferentes estilos de consumidores”, afirmou à DINHEIRO o responsável pela área mobile da Samsung no Brasil, o gerente sênior Renato Citrini.

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O AMANHÃ É O HOJE A remessa de smartphones no mercado mundial em 2022 e 2023, segundo o IDC (International Data Corporation), terá um crescimento de 3,4%, um número menor que o estrelado ano de 2021, que teve aumento de 7,4%. Isso representa 1,37 bilhão de unidades espalhadas pelas mãos dos consumidores, impulsionadas muito por aparelhos com 5G. Um adendo: segundo Jan Stryjak, diretor associado da Counterpoint Research, os níveis do mercado mundial de smartphones, apesar de positivos, ainda estão abaixo dos períodos pré-pandemia.

A chinesa que pode atrapalhar os planos da Samsung é a Xiaomi, que ocupou buraco deixado pela Huawei, vítima de severas sanções dos EUA.

A nova tecnologia do 5G, que a partir de julho passa a funcionar nas grandes capitais do Brasil, pode ser o grande impulso para esses números crescerem. Entre os grandes concorrentes da Samsung já com 5G, só para citar alguns na relação tecnologia+custo+benefício, estão o Xiaomi Mi 11, o Oppo Find X3, o OnePlus Nord 2, o ZTE Axon 30 Ultra, o Nubia Red Magic 7, o Realme GT Pro 2 e o Honor 50.

O novo mote mundial da Samsung é “juntos para o amanhã”, que quer ser uma companhia de smartphones ecologicamente correta. “Nossa liderança em inovação precisa se igualar também a nossa liderança em ‘inovação sustentável’”, disse o CEO Jong-Hee Han. A fábrica quer aumentar em 30 vezes o uso de plásticos recicláveis — enquanto sua concorrente chinesa, a Realme, incorporou biopolímeros em seu design e diminuiu de 21,7% para 0,3% o uso de plástico em sua embalagem. Chineses na frente…

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Além de assistência técnica e quantidade de atualizações de sistema, as câmera da Samsung e Apple sempre tiveram uma vantagem, mas agora enfrentam, por exemplo, as elogiadas lentes da Oppo em seus smartphones premium. Nessa categoria, alguns chineses são criticados por um estrangulamento de desempenho em seus celulares (quanto mais processamento, mais lento), mas vale lembrar que Han se desculpou frente aos acionistas da Samsung em março deste ano por conta do mesmo problema em seus Galaxy S22 — um dispositivo estaria atrapalhando a performance, no lugar de terem materiais que pudessem impedir o calor excessivo. Barateamento de custos? Pode ser…

80% é o acúmulo de mercado das top 5 de smartphones no mundo 

Há três anos, o perigo para a Samsung era a Huawei — em 2020 ela chegou a superar em volume de vendas globais a líder, segundo dados da Canalys. Até que a Huawei teve seu pneu furado pelos EUA, que alegaram que os aparelhos da marca abriam brechas de segurança no país. Resultado: sanções, banimento das prateleiras americanas e corte no acesso a tecnologias como semicondutores avançados, essenciais para evoluírem. Evaporou-se 81% de sua presença no mercado. Para 2022, o alerta vermelho da Samsung vem com a aproximação da Xiaomi, a única a ultrapassar a marca dos 10% de market share nos últimos anos, com 11,61%. Na Europa, por exemplo, ela sobe a passos mais largos, pois cresceu 50% em um ano (2020) e marcou 20% de participação no bolo da região, segundo a Counterpoint. Na Europa, a Samsung é líder, com 32%, seguida da Apple, com 26%.

Curiosamente, as companhias no Top 5 dos smartphones agrupam 80% do mercado, deixando algo em torno de 300 milhões de aparelhos para serem vendidos nas mãos da Huawei, Motorola, Asus, Sony, ZTE, Honor. É uma fatia pequena. “Chegou a hora de evoluirmos nossos produtos e experiências para se encaixarem melhor em uma nova geração de usuários”, afirmou Han, num possível aceno justamente a um público dessa faixa intermediária de qualidade e preço.