Um Produto Interno Bruto de R$ 8,7 trilhões. Uma alta anual de 4,6 %. Essas são as cifras que o presidente Jair Bolsonaro e sua trupe ostentam para dizer que o Brasil atravessou a pandemia bem, e sua política econômica foi exitosa. Armados dessa narrativa manca — já que o resultado se dá comparado a 2020, em que a queda foi de 3,9% —, o objetivo é contaminar de otimismo o empresariado, o mercado e a população, ao prometer que em 2022 toda essa força pode se repetir. Até poderia, mas dificilmente irá. Primeiro porque as condições macroeconômicas que sustentaram o avanço ano passado não irão acontecer de novo este ano. Segundo porque, mesmo maquiado de otimismo, o fato é que o Brasil figura (entre os 36 países que já anunciaram o resultado do PIB de 2021) na 26ª colocação.

Olhando com lupa os resultados do ano passado, algumas coisas precisam ser destacadas. O PIB per capita, ou seja, a quantidade de riqueza nominal do país dividida pelo número de habitantes segue menor que o período que antecedeu a pandemia. Segundo a coordenadora do Boletim de Macroeconomia do Ibre/FGV, Silvia Matos, que fez essa análise, esse quadro não deve mudar neste ano. Para 2022, a FGV estima crescimento do PIB de 0,6% e no próximo ano em 1,1%. Nesse ritmo, o PIB per capita cairia 0,1% este ano, e teria um leve avanço (0,4%) em 2023. Nesse ritmo, alcançaríamos o nível de 2020 somente em 2024.

Mesmo assim não será possível bater o patamar de 2013. Para chegar lá seria necessário esperar até 2029, “isso em um cenário bem, bem otimista”, disse Silvia. O pico da renda anual do brasileiro foi de R$ 39,75 mil ao ano, em 2013, e hoje está em R$ 36,5 mil, o que exige crescimento forte daqui em diante. Numa conta mais realista, o prazo estica: “Se levarmos em conta que entre 1981 e 2019 crescemos em média 0,7% ao ano, só chegaremos ao patamar de 2013 em 2034.”

DEFASAGEM E REPRESAMENTO Para mostrar como o PIB não terá vida fácil neste ano, o primeiro bom exemplo foi apresentado na quarta-feira (9) pelo Instituto Brasileiro de Geografia (IBGE) que divulgou o resultado de janeiro da Produção Industrial Brasileira. Segundo o recorte, houve queda de 2,4%na comparação com dezembro de 2021 e de 7,2% sobre um ano antes. Foi opior início de ano desde 2018.

Andre Macêdo, coordenador da pesquisa, ressaltou que a indústria segue 3,5% abaixo do patamar de antes da pandemia e 19,8% inferior ao pico da produção, em maio de 2018. “A alta de dezembro [2,9%] foi ponto fora da curva”, disse. Os destaques negativos foram veículos automotores (-17,4%) e indústrias extrativas (-5,2%). Segundo o pesquisador, o ritmo de recuperação de toda a cadeia produtiva foi perdendo fôlego no segundo semestre, e encontra em 2022 um terreno ainda mais inóspito. “A perspectiva é preocupante, mesmo com a redução do IPI.” Fatores como o atraso na entrega de insumos (primeiro pela Covid, e agora pela guerra na Ucrânia) formam cenário temerário para os industriais.

Ainda na indústria, os construtores também olham com atenção o cenário macroeconômico. Em 2021, o setor cresceu 9,7% em 2021, após amargurar queda de 6,1% em 2020. O resultado, que foi um dos destaques na composição do PIB do ano passado, está longe de se repetir. Segundo pesquisa do Sindicato da Construção (Sinduscon-SP) a desaceleração será evidente. Em 2021, o setor abriu 246 mil vagas de emprego, e este ano a previsão é de 110 mil. O resultado do ano passado foi impulsionado pela demanda represada por imóveis novos e condições favoráveis de juros com a Selic abaixo de 6%. Segundo Eduardo Zaidan, vice-presidente do SindusconSP, em 2022, com mais obras em curso, falta de insumos e juros em trajetória de alta, o cenário muda. “E temos a preocupação fiscal, que é o pano de fundo dos problemas do brasileiro”, disse.

OS GIGANTES DO PIB Conhecido nos últimos anos por amortecer o tombo da atividade econômica, o agronegócio não teve em 2021 seu melhor desempenho, e não deve reverter isso agora. Segundo o IBGE, no ano passado, o PIB da agricultura encolheu 0,2%. Segundo Rebeca Palis, coordenadora de Contas Nacionais do IBGE, mesmo com a alta de 11% na produção de soja, outras culturas registraram baixa na produção e perda de produtividade em 2021. “Já o baixo desempenho da pecuária é explicado, principalmente, pela queda nas estimativas de produção dos bovinos de corte e de leite.” Para este ano, além da previsão de geadas e estiagem mais longas que o normal, as questões mundiais também cobrarão seu preço. Emerson Vitta, economista do núcleo de estudos da produção agropecuária da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura para a América Latina (FAO), diz que é hora de procurar novos mercados além do europeu. “O envio para o bloco pode se tornar o mais caro dos últimos 30 anos.”

Já a força motriz do PIB em 2021 e o maior empregador do Brasil, o setor de serviços cresceu 4,7%. Destaques para informação e comunicação (12,3%) e logística e armazenamento (11,4%). Em ambos os casos, o crescimento reflete hábitos trazidos pela pandemia. Com o retorno à normalidade, os ganhos arrefecerão. O economista José de Sá, professor da Universidade de São Paulo (USP), disse que sem aumento da renda (e as pessoas voltando a gastar mais fora do lar), o consumo das famílias vai cair. “Primeiro porque na pandemia o preço dos serviços baixou, segundo porque trabalhando de casa o brasileiro juntou dinheiro para este fim. Nada disso se repetirá neste ano”. Não importa quanto o presidente se contorça para provar que o Brasil crescerá em linha com 2021. A musculatura deste PIB pode romper antes de esticar tanto.

+ Terapia reverte com segurança sinais de envelhecimento em camundongos
+ A mansão mais cara do mundo: meio bilhão de dólares
+ Mansão mais cara do mundo é vendida pela metade do preço