11/02/2022 - 1:25
Os investidores estrangeiros estão voltando. Há fatos concretos para provar isso. No ano, até o início de fevereiro, o Ibovespa subiu mais de 8% e o real se apreciou quase 6% em relação ao dólar, com a moeda americana recuando para menos de R$ 5,25. Esse retorno vem ocorrendo apesar do ritmo lento da economia e das ameaças de populismo fiscal do governo e do Congresso. Para Paulo Gala, economista-chefe do Banco Master, isso ocorre porque o Brasil oferece boas oportunidades.
DINHEIRO — Como explicar a recente euforia do mercado financeiro?
PAULO GALA — Os estrangeiros estão voltando. E é fácil entender o porquê. Eles fizeram as contas e perceberam que o Brasil está barato. Basta comparar dois índices de ações. Nos Estados Unidos, o índice S&P 500 subiu cerca de 20% no ano passado. É muito, se pensarmos que foi uma alta em dólares. O Ibovespa caiu 10% — e o dólar subiu ante o real. Qualquer investidor internacional que fizesse essa conta perceberia que há muitos ativos brasileiros, tanto ações quanto títulos de renda fixa, sendo negociados a preços muito descontados. O que prejudica isso é a inflação. Hoje, nosso maior risco é a inflação.
Não é a situação fiscal? Com o governo e o Congresso demolindo o teto de gastos?
Não. Por incrível que pareça a situação fiscal melhorou muito em 2021. Houve um forte aumento de arrecadação devido à elevação dos preços da gasolina e da energia elétrica. O problema é a inflação, mas ela está sendo combatida neste ano. O Banco Central (BC) já está subindo os juros. A Ata do Copom publicada na terça-feira (8) foi bastante explícita. Ela informou que, para o mercado, o teto da Selic é de 12% ao ano, mas o BC fez questão de afirmar que os juros vão subir acima disso. Isso é um ajuste firme e que está sendo feito agora. Em 2023, qualquer que seja o novo presidente, ele vai receber um país cuja inflação está convergindo para a meta, o que facilita muito as coisas.
Há outros pontos positivos?
O Brasil está bem melhor do que se imagina. As relações comerciais do Brasil com o exterior são boas. Temos US$ 350 bilhões de reservas e US$ 50 bilhões ou US$ 60 bilhões de superávit comercial. Assim, seria difícil encontrar um cenário ruim em 2023. A inflação estará convergindo, os juros começarão a cair porque o ajuste terá sido feito. O quadro fiscal está melhorando muito, a não ser que o Congresso aprove alguma pauta bomba em 2022.
É o caso da desoneração dos combustíveis?
Por exemplo. Há esse medo da desoneração, que eu acho que seria um grande equívoco. Desonerar os combustíveis significa uma renúncia fiscal de R$ 50 bilhões a R$ 100 bilhões. Mas vamos admitir que isso não vai passar. Então, o governo deverá herdar um superávit primário melhor. É verdade que a dívida pública subiu, está em 80% do PIB, mas não registrávamos um superávit primário desde 2013. Com isso, eu não quero dizer que este governo vai deixar um legado positivo ao sair. A situação estará positiva apesar do governo, não por causa do governo. Se bem que temos de reconhecer que o ministro Paulo Guedes partiu para uma briga fiscalista muito forte, mas perdeu a batalha.
Qual seu pior cenário pós-eleição?
O principal risco vem do cenário externo. A inflação americana está em 7% ao ano, que é o maior índice desde junho de 1982. E isso não ocorre apenas nos Estados Unidos. A inflação na OCDE está correndo também ao redor de 7% ao ano e não dá sinais de alívio. Não conseguimos dizer que 2022 começou com sinais claros de que a inflação global está caindo. Ao contrário. Basta olhar as commodities. O petróleo subiu 15% em janeiro. Minério de ferro deve ter subido 10%. Os preços de commodities como soja, café e açúcar estão em suas máximas históricas. E o mercado de trabalho americano está muito aquecido. Havia uma leitura de que a variante ômicron iria desacelerar a economia americana, mas em dezembro e em janeiro foram criadas 1 milhão de vagas de emprego nos Estados Unidos. O Fed não pode chegar na reunião de março e dizer que o mercado de trabalho está fraco. Então, o Fed já deixou bem claro que vai acabar com os estímulos e que a alta dos juros deve começar em março.
Como será esse ajuste nos juros americanos?
A dúvida é se eles vão começar com aumentos mais intensos nos juros, de 0,5 ponto porcentual por vez, ou se serão mais graduais, elevando os juros em 0,25 ponto por vez. Eu estou mais convencido da segunda hipótese, de uma alta mais gradual. Deverão ser quatro altas dos Fed Funds neste ano, com os juros terminando o ano em 1%. Isso é piso, pode ser até um pouco mais, mas eu imagino que o Fed não tentará provocar um choque de juros. Ou seja, realizar uma alta de 0,5 ponto porcentual seguida de mais cinco altas consecutivas do mesmo tamanho, elevando as taxas para 3% ao ano ainda em 2022. Eu rezo todos os dias para que isso não aconteça.
Por quê?
Tivemos algo parecido em 2006, quando o Ben Bernanke, presidente do banco central americano que substituiu o Alan Greenspan, aumentou os juros para conter a inflação. Ele começou a elevar as taxas em movimentos de 0,5 ponto porcentual, até que os Fed Funds chegaram a 6% ao ano. E isso foi catastrófico. Furou a bolha imobiliária, quebrou o banco de investimentos Lehman Brothers. Houve fundos alavancados que não conseguiram honrar posições e não puderam pagar resgates. Isso provocou um efeito cascata, virou uma bola de neve.
E hoje vivemos uma situação parecida?
De certa forma sim. O balanço do Fed mais do que dobrou em pouco menos de dois anos, saiu de US$ 3,5 trilhões antes da pandemia para US$ 8,8 trilhões. A liquidez cresceu de maneira frenética. Mas há uma diferença. Os preços dos imóveis subiram muito nos Estados Unidos, uma alta de 15% ou 20% dependendo da região, mas o ritmo de construção não retornou ao que estava em 2006. Por isso mesmo eu acho que o Fed pode até elevar os juros de maneira um pouco mais agressiva, mas não vai ter coragem de realizar um choque de juros.

Como fica o Brasil se isso ocorrer?
O Brasil está melhor do que se imagina e melhor que os demais países emergentes. O Brasil continua com reservas fortes, a situação do balanço de pagamentos do governo em relação ao setor externo está tranquila, os preços das commodities estão em alta, a arrecadação aumentou. Não dá para dizer que o Brasil passaria ileso por uma forte crise internacional, mas dá para dizer que estamos relativamente blindados.
Ainda assim existem riscos, então?
Claro que um choque de juros nos atrapalharia, assim como iria atrapalhar a vida dos demais países emergentes. Isso provocaria um efeito adverso no mundo todo. O dólar chegaria a R$ 6, o crescimento de 2023 não confirmaria as expectativas de 2%, tudo isso atrapalha. Não estamos tão mal como em 2002, quando tínhamos poucas reservas, havia um déficit externo e nossa capacidade de financiamento internacional era reduzida. Não somos uma Argentina nem uma Turquia. Sou muito crente nas reservas cambiais, mais até do que do superávit fiscal. Economistas gostam de trade-off, então eu digo que prefiro que a economia tenha uma relação entre dívida pública e PIB de 80% e US$ 350 bilhões em reservas do que ter uma relação de 40% e possuir apenas US$ 100 bilhões de reservas.
E quais as oportunidades para o investidor?
A imagem do Brasil está muito ruim lá fora. O noticiário atrapalhou, com devastação na Amazônia, a condução desastrada da saúde pública durante a pandemia, a questão da vacina. Isso acabou deixando o Brasil barato. No início deste ano nós vimos o estrangeiro voltando, pois o Brasil está estruturalmente barato. Pensando que o Ibovespa está ao redor de 110 mil pontos, que o dólar está a R$ 5,50 e com os juros longos em 12% ao ano, o próximo presidente teria de fazer muita besteira para piorar isso. Para levar o dólar a R$ 7,00, por exemplo. Isso em termos mais genéricos. Mais especificamente, investir em um título público que paga juro nominal de 12% ao ano ou juro real de 5% ao ano é o chamado “no brainer”, não precisa nem pensar. Você tem uma janela de cinco anos para ganhar 5% ao ano acima da inflação comprando um título público com risco de inadimplência zero. E a bolsa está no nível mais barato em cinco ou seis anos.
Quais ações?
Prefiro falar de setores. O futuro próximo é problemático. Ainda devemos entrar em uma recessão, este primeiro trimestre será muito ruim, os indicadores antecedentes de varejo e as vendas de automóveis foram ruins, então as ações de empresas cíclicas, que dependem do mercado interno, vão sofrer com certeza. Agora, comprar uma ação de uma boa empresa pensando em um prazo de dois ou três anos, imaginando que a empresa vai crescer e ganhar mercado, isso é outra coisa. Nesse aspecto, as ações de commodities são seguras, mas estão caras. Como diz o Warren Buffett, você deve comprar ao som de canhões e vender ao som de violinos. Estamos ouvindo violinos para as commodities. E ouvimos canhões para as empresas cíclicas.
(Nota publicada na edição 1260 da Revista Dinheiro)