11/02/2022 - 1:15
A grande incógnita do momento é como o governo pretende impor uma estratégia populista, atravessando o projeto liberal da pasta da Economia e, inevitavelmente, implodindo com as contas públicas. Não é brincadeira a política em curso. A transferência da palavra final sobre o Orçamento Federal para a Casa Civil, controlada por Ciro Nogueira, foi apenas o primeiro lance de esvaziamento covarde dos critérios técnicos.
Algo que vem incomodando, de longa data, não apenas o ministro Paulo Guedes, como também todos os demais assessores que, ao lado dele, ainda buscam sustentar um mínimo de sensatez nas medidas estruturais em análise. O autor da PEC dos combustíveis, senador Carlos Fávaro (PSD-MT), irritado com a resistência do “Posto Ipiranga”, resolveu partir ao ataque: “Kamikaze é a política de Guedes”, reagiu, em resposta à alcunha escolhida pela ala econômica para definir o projeto. “Eu esperava mais respeito do ministro”, concluiu.
Respeito, na verdade, falta não apenas ao parlamentar Fávaro, como também a setores do governo federal que mergulharam na farra fiscal, sem nenhuma responsabilidade, para satisfazer desejos eleitoreiros, desarranjando as finanças do Estado.
O golpe de misericórdia nesse sentido foi dado pelo próprio filho do presidente, senador Flávio Bolsonaro, que assinou a proposta de emenda constitucional — cujo impacto deverá ser superior a R$ 100 bilhões, como buraco de caixa — criando um mal-estar tremendo e constrangimento nos corredores do Ministério. Para os congressistas (boa parte de olho nas urnas) o problema de Guedes seria enxergar “preto ou branco” e eles advogam a ideia de uma visão mais “50 tons de cinza”.
Traduzindo a metáfora para a realidade concreta: procuram brechas que possibilitem armar o artefato. Enquanto Guedes faz o papel de último bastião da moralidade financeira do governo, o colega de Esplanada, Ciro Nogueira, vai ganhando cada vez mais espaço nas decisões do mandatário e assumiu de vez a condição de interlocutor preferencial do Parlamento, com o endosso e incentivo do próprio inquilino do Planalto. É o que se pode chamar de anarquia de gestão, com o objetivo de garantir mais quatro anos de poder ao capitão.
Guedes, de sua parte, mostra-se cansado. Assumiu por esses dias que, definitivamente, faltou apoio para implementar a tão sonhada agenda liberal. Ele culpa inclusive o que chama de “inapetência da elite brasileira pelo avanço das reformas”.
Tem reclamado, brigado, alertado, mas sua voz perde força e prestígio, acelerados, junto aos interlocutores. Qualquer um, com um mínimo de racionalidade, é capaz de perceber que a PEC dos Combustíveis representa uma loucura completa. Não precisaria nem o ministro apontar. Mas os olhos do Parlamento estão cegos de ambição frente à vontade de oferecer agrados ilusórios para uma massa de eleitores partidários.
Guedes classifica os opositores de “bando de medíocres, despreparados” e nessa guerra de narrativas se resume o destino fiscal do País. Triste notar. Com ele concorda o vice-presidente, Hamilton Mourão, que também considera a PEC uma bomba. Na mesma linha, o Banco Central alertou em sua ata que as mudanças estudadas na taxação dos combustíveis deverão redundar, no final, em aumento de preços, ao invés de diminuí-los, e, por tabela, em subida da inflação. Guedes conta, ao menos, com fortes aliados em sua cruzada pela busca da lucidez.
(Nota publicada na edição 1260 da Revista Dinheiro)