03/08/2011 - 21:00
Não é exagero dizer que a anunciada retirada do megainvestidor húngaro naturalizado americano George Soros da gestão de recursos de terceiros é o fim de uma era. Prestes a completar 81 anos, Soros informou, na segunda-feira 25, que iria encerrar as atividades de sua empresa de gestão. A partir do ano que vem, ele vai administrar apenas o patrimônio familiar, estimado em polpudos US$ 24 bilhões. Ao contrário de muitos gestores com trajetórias tão brilhantes quanto breves, Soros deixa uma parte da liça no auge de sua forma. Desde o lançamento do Quantum Fund, em 1973, Soros premiou seus clientes com uma rentabilidade anual média de 20% em dólares, comparável a outro megainvestidor, o americano Warren Buffett.
No entanto, a proximidade entre ambos se encerra aí. Buffett se especializou em comprar empresas e manter esses investimentos durante longo tempo. Soros sempre adotou estratégias sofisticadas. Ele não foi o inventor dos chamados hedge funds, mas é o gestor mais famoso deles. Um hedge fund, ao contrário do que o nome diz, não busca proteção (hedge), mas especula em todos os mercados possíveis. Soros se acostumou, desde o princípio, a fazer apostas complicadas e arriscadas. Algumas vezes perdeu muito dinheiro; em outras, embolsou lucros fabulosos. Sua tacada mais conhecida ocorreu em 1992. Naquele momento havia um pesado desequilíbrio monetário na Europa.
Evitando os reguladores: decisão de George Soros visa driblar as limitações legais, mas sem perder o poder de fazer apostas
Três anos antes, em 1989, havia começado o doloroso processo de reunificação da Alemanha, que obrigara o governo alemão ocidental a injetar bilhões de dólares na economia do Leste, desvalorizando o marco em relação a outras moedas. A libra esterlina apreciou-se em relação ao marco alemão, e a Inglaterra perdeu competitividade. Para resolver a situação, o Banco da Inglaterra teria, mais cedo ou mais tarde, de desvalorizar a moeda. Convencido disso, Soros apostou mais de US$ 10 bilhões na queda da libra, que ocorreria no dia 10 de setembro de 1992. Na chamada “quarta-feira negra”, ele embolsou US$ 1,1 bilhão e se tornou um dos mais celebrados profissionais do mercado financeiro.
O resultado dessa aposta do Quantum Fund mostrou às autoridades econômicas que havia novos atores com os quais se preocupar. É incorreto dizer que Soros “quebrou” o Banco da Inglaterra, assim como é inexato negar que o Quantum Fund precipitou uma decisão que poderia ter sido protelada por anos. “Os fundos de hedge são o maior desafio à autoridade dos bancos centrais”, disse, na ocasião, Alan Greenspan, então presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano). As apostas dessas entidades pouco reguladas, em sua maioria sediadas em paraísos fiscais, obrigaram países com distorções em suas economias – como moedas muito valorizadas – a se corrigir. “Os fundos se especializaram em encontrar fragilidades e especular contra elas”, disse o ex-presidente do Banco Central (BC) Gustavo Franco ao comentar as apostas dos fundos contra o real.
Ao longo dos anos, Tailândia, Malásia, Indonésia, Coreia e, mais recentemente, o mercado imobiliário americano foram alvos da especulação. A partir de 2010, porém, as regras ficaram mais estritas. O Congresso americano aprovou o ato Dodd-Frank, que deu mais poder às autoridades monetárias e de mercado de capitais para esquadrinhar as pesadas apostas dos fundos de hedge, além de exigir mais capital próprio deles, o que, na prática, reduz seu poder de fogo. “Esse ato proporcionou mais poder para evitar as crises ao ampliar a capacidade das autoridades em regular e fiscalizar o sistema financeiro”, disse Ben Bernanke, presidente do Fed, em um depoimento no Congresso em 21 de julho, primeiro aniversário do Dodd-Frank.
A decisão retirou autonomia dos hedge funds e o de Soros não foi exceção. Nos últimos tempos, especialmente a partir do ano 2000, o gestor tornou-se bem mais cauteloso e conservador, mas não perdeu sua aura. Mesmo estando menos envolvido diretamente na gestão nos últimos tempos, ele sempre assumiu as rédeas em horas de crise. Ao transformar sua empresa em uma entidade privada que usa apenas capital próprio, Soros dribla a fiscalização – e poderá continuar fazendo suas apostas.