Presidente da Câmara de Comércio Brasil-Rússia e cônsul honorário da Belarus no Rio de Janeiro, Gilberto Ramos passou os últimos 34 anos em tratativas com o mercado russo, mas poucas vezes viveu momentos tão tensos. Em 16 de fevereiro, dias antes da eclosão do conflito com a Ucrânia, Jair Bolsonaro esteve em Moscou para um encontro de chefes de Estado. Sem se importartar com as críticas que a visita recebeu de parceiros comerciais importantes ­— caso dos EUA —­ Ramos considera a aproxinação com o governo de Vladimir Putin estratégica para a economia brasileira. Questionado sobre o futuro das negociações, ele afirmou que “os acordos continuam valendo e o que preocupa agora é como e quando devem se concretizar”. Para especialista, a probabilidade de o Brasil impor sanções econômicas à Rússia é baixa.

DINHEIRO — Qual o saldo real do encontro do Brasil com a Rússia no mês passado?
GILBERTO RAMOS — Nós coordenamos o fórum empresarial, que aconteceu no dia 15 de fevereiro, em Moscou. Da comitiva brasileira participaram representantes do setor agropecuário: Aprosoja, Abrafrutas, ABPA e a ABIEC, além do presidente da União Química, empresa que foi parceira da Rússia na intenção de produzir a vacina Sputnik aqui. Foram esses cinco empresários mais a Apex-Brasil. Da parte russa, participaram Andrey Guryev, presidente e acionista majoritário da PhosAgro, maior produtora de fosfato no mundo, pessoas da Sodrugestvo, multinacional do agronegócio com presença no Brasil, e da Uralkali, que produz cloreto, nitrogenados e ureia, e executivos da Acron, que comprou a unidade da Petrobras em Três Lagoas para a produção de ureia. O Brasil tem carência logística e de armazenagem nesse setor, então surgiram promessas de investimentos russos em infraestrutura aqui no País.

E quanto ao encontro de Bolsonaro com Putin?
No encontro dos dois chefes de Estado foram assinados protocolos com acordos de cooperação técnico-militar, já que um dos acompanhantes da agenda do presidente Bolsonaro era o Ministro da Defesa. Além disso, a exportação brasileira para a Rússia vem caindo nos últimos anos — em 2021, representou US$ 1,6 bilhão — e a diplomacia do Ministro das Relações Exteriores, Carlos França, está buscando aproximação com parceiros estratégicos, depois de termos nos isolado na gestão do [chanceler] Ernesto Araújo, que se deixou levar por um viés ideológico.

O momento escolhido para essa visita foi muito criticado, especialmente por parceiros comerciais como os EUA.
O Brasil é um país soberano. Não podemos nos basear apenas no que está pensando o establishment americano. Existe interesse russo em investir em estrutura para produção de fertilizantes no País. Além disso, no ano passado, o Brasil firmou um acordo com as três maiores empresas pesqueiras da Rússia para liberar a pesca em águas territoriais e para que, eventualmente, pudessem operar depósitos para congelamento e processamento. A minha visão é desenvolvimentista e essas são grandes oportunidades que o Brasil tem, que precisam estar à frente do que está pensando o governo dos Estados Unidos.

“Existe interesse russo em investir em estrutura para produção de fertilizantes no Brasil. São oportunidades para o País que precisam estar à frente do que pensam os Estados Unidos” (Crédito:Istock)

Mas as tropas russas já estavam nas fronteiras da Ucrânia. Era um cenário de alto risco para a política externa…
Essa visita também não seria possível mais tarde, porque estamos em ano eleitoral. Uma normalização na Rússia deve demorar, principalmente até entender como se dará a retomada das estruturas, como ficarão as questões de transferências e compensações internacionais bancárias.

E como ficam esses acordos agora?
Os acordos continuam valendo. O que preocupa é como e quando devem se concretizar. As necessidades ainda existem: a Rússia tem um excedente de produção e abastece em torno de 20% do mercado de fertilizantes no Brasil. Somada à Belarus e outros países da comunidade Eurasiática, a fatia chega a 28%.

Como foi expressa a postura do Brasil em relação a esse conflito?
A posição da diplomacia brasileira nesse conflito é amena, por isso foi questionada pelos representantes americanos e europeus, que esperavam uma postura mais veemente. Mas o que se poderia querer da posição do chefe de Estado brasileiro duas semanas após a assinatura de vários acordos?

Ainda há uma pressão internacional para imposição de sanções econômicas à Rússia. Como o Brasil deve se posicionar agora?
A probabilidade de o Brasil impor sanções econômicas à Rússia é baixa. A diplomacia brasileira sempre se pautou pelo equilíbrio, especialmente diante de uma questão que põe em xeque a relação bilateral com um país membro do BRICS. Uma medida dessa agora seria contrária ao interesse do Brasil neste momento.

Como o senhor vem orientando as empresas brasileiras que fazem negócios na Rússia?
Que é hora de aguardar pelos desdobramentos, mas continuar desenvolvendo estratégias para os canais de investimentos entre Brasil-Rússia. Tive reunião com uma empresa brasileira que produz tabaco para narguilé e esteve na última semana em uma feira em São Petersburgo. De lá, os executivos disseram que está tudo acontecendo normalmente.

Se não há intenção de suspender as relações comerciais, como as empresas fariam transações com a Rússia agora que o país foi barrado do Swift?
É precipitado dizer como ficará essa situação. O ajuste acontecerá com o tempo. Acreditamos e esperamos um cessar-fogo, mas não sabemos que outras sanções serão adotadas contra a Rússia. É bem possível que o país crie um novo mecanismo para substituir o Swift e sair do controle desses grupos. Mas é um absurdo impor sanções contra empresas russas, que geram empregos e exportam para outros países. As bancas que atuam com comércio exterior no grupo jurídico da Câmara Brasil-Rússia estão aptas a entrar com mandados na hora que for necessário. É uma medida extremamente dura: por que punir todas as empresas? Não estamos falando apenas dos oligarcas, mas de empresários que enfrentan sanções muito duras. Estamos vendo uma “russofobia” no mercado.

É uma maneira de cortar recursos econômicos que sustentam esses regimes e estariam a serviço de sua política…
Esta é uma visão bem maquiavélica. A questão é que este é um recurso com fins de controle. E o que realmente chamou a atenção do mercado foi a assinatura do grande acordo entre Rússia e China em 4 de fevereiro, que adensou as relações entre duas nações com grande poderio socioeconômico e militar. A China tem uma das maiores reservas de ouro do mundo, e a Rússia é a grande fornecedora de matéria-prima energética para a atividade industrial chinesa. Este foi o momento de virada das correntes de controle de poder global. Essa nova relação está em evidência para os outros países.

O senhor está dizendo que este seria o verdadeiro motivo para a guerra econômica travada pelos países ocidentais contra a Rússia?
A diferença desta para outras guerras recentes é que as nações envolvidas em todos os outros episódios não sofreram sanções econômicas. São dois pesos e duas medidas. Existem interesses de grupos financeiros, que têm a perder assim que não tiverem mais controle da situação. Movimentar o comércio e o sistema financeiro é acionar o soft power, sendo que guerra é hard power.

“A diferença desta para guerras recentes é que as nações envolvidas em todos os outros episódios não sofreram sanções econômicas” (Crédito:AFP)

E quem são os grupos interessados nas sanções contra a Rússia?
São grupos financeiros de capital especulativo que o Putin combateu e até mesmo expulsou da Rússia. Private equities que administram algumas fortunas e bancos. O mercado é interconectado, então essas sanções se tornaram um grande desafio, ou seja, esse tipo de medida só interessa a esses grupos econômicos.

A aproximação entre Rússia e China pode representar uma ameaça às exportações brasileiras para a China?
Esse é um risco real. As relações entre Rússia e China podem deslocar o Brasil desse eixo de comércio internacional. Uma forma de o País reagir é intensificar os canais de investimentos com esses países. O grande diferencial do Brasil hoje está na relação comercial em áreas que não são tão tradicionais. No ano passado, estimamos com o MDIC que a corrente de investimentos Brasil-Rússia tinha potencial de US$ 40 bilhões a US$ 50 bilhões em cinco a sete anos, uma projeção que levava em conta setores de infraestrutura, tecnologia e energia, principalmente as renováveis. E nada impede que o País continue sendo um exportador de produtos agrícolas, podendo até crescer nessa fatia, mas o mosaico de possibilidades com a Rússia é muito mais rico.

Na sua opiniãio, o que poderemos ver dos desdobramentos dessa guerra daqui para frente?
Além de a saída do Swift ter tido um grande impacto sobre a Rússia, o país não deve querer queimar suas reservas de ouro. Por isso, a extensão desse conflito não interessa. Mas quando haverá um cessar-fogo e, principalmente, quando essas bases econômicas russas se reerguerão, ninguém sabe. Deve demorar um pouco. É uma guerra fratricida, que nem deveria estar acontecendo. Minha esperança é que os países voltem a dialogar e apelem para a criação de novos mecanismos para chegar a um armistício.