11/02/2022 - 1:30
É como esperar ansiosamente a saída de uma estradinha de terra para a moderna rodovia e, enfim, poder acelerar, ver a paisagem pela janela desfocar e o ponteiro do velocímetro quase dobrar sua posição.
Esse agradável e libertário vento no rosto é o que a sueca Ericsson está sentindo neste exato momento. A empresa definiu investimento de R$ 1 bilhão entre 2021 e 2024 no País para pesquisa e desenvolvimento de 5G, que trará a rapidez e baixa latência (tempo de resposta) que boa parte dos brasileiros vai usufruir em 2022. “Estamos superentusiasmados.
Todos querem ter conectividade confiável e a preço justo em casa, morando em área urbana ou rural”, disse à DINHEIRO o presidente da Ericsson para Europa e América Latina, Arun Bansal, engenheiro por formação e há 27 anos em cargos-chave para o 5G na empresa. “Espero que o Brasil crie incentivos para que todos tenham acesso a isso e que ninguém fique para trás.”

Após o maior leilão de radiofrequência da América Latina, com arrecadação de R$ 47 bilhões, o executivo viu surgir um cenário otimista para o País no setor, graças aos compromissos colocados como requisitos em infraestrutura para as operadoras, o que confirmaria as melhores práticas ao redor do mundo, segundo o executivo.
Com reticências ou não ao certame, o Brasil se equipararia, segundo ele, à China, que não dá licença alguma para operadoras a não ser que se cumpram metas estruturais.
DESAFIOS Morando em Londres, e já tendo vivido na Índia, seu país natal, Suécia, Estados Unidos, Singapura e Indonésia, Bansal sabe distinguir muito bem suas duas atribuições continentais atuais, tão diversas.
A América Latina e o Brasil, em comparação com a Europa, apresentariam um quadro futuro muito mais dinâmico para os investimentos da Ericsson. Até mesmo nossa infraestrutura em telecomunicações deficiente em pontos complexos e remotos são desafios instigantes para ele, pois a tecnologia chegaria solapando os Gs anteriores.
“Existem pessoas fora de grandes cidades que não têm nem fibra óptica, então a única solução para elas é o 5G”, disse. E cita a demografia brasileira, que mostra uma população jovem, em crescimento. Na Europa, o oposto: uma estagnada e velha. “Por isso a primeira é mais interessante. Acreditamos que as inovações em 5G virão da Ásia e América Latina”, afirmou o presidente. Segundo um relatório da empresa, 59% das assinaturas móveis no continente latino é de 4G LTE, e espera-se que isso baixe para 46% até o final de 2026.
Nesse mesmo quadro, 1,6 milhão de empregos serão criados por meio do negócio móvel, daí os festejos para a evolução da tecnologia. A fatia desse mercado da Ericsson no Brasil é de 52%, sendo seus principais competidores a Nokia e a Huawei.

“O 5G vai ser crucial, principalmente para melhorar o desempenho de metas no curto prazo e automatizar indústrias” Rodrigo dienstmann, presidente da Ericsson para o cone sul da américa latina
Serão dois momentos que o País verá com o 5G. O primeiro quando a tecnologia se espalhar pelas cidades, e isso inicialmente se traduzirá simplesmente no marcador do velocímetro — algo para ainda este ano, já que existe uma obrigação das operadoras para cobrirem as capitais até julho, sendo que algumas já disseram que vão além disso. O segundo será quando as operadoras começarem a lançar novos serviços, que não estarão limitados ao puro broadband que conhecemos no 4G. Serão jogos, upload de conteúdo e modelos de negócios que ainda não existem no atual cenário, e esse momento vai levar alguns anos.
O Brasil já experimenta o 5G, com operadoras que lançaram o serviço para negócios em São Paulo e Rio de Janeiro. A própria Ericsson é pioneira em casos de uso real do 5G por aqui. Um exemplo é a parceria com a Vivo na Fazenda e Usina São Martinho, em Pradópolis (SP), em que um drone esquadrinha em tempo real áreas de plantio para a empresa, notando pragas, incêndios e outros dados. A empresa já introduziu redes dedicadas de 5G para ajudar algumas companhias em alguns ramos a entender como poderão se beneficiar com a tecnologia. “E no pós-Covid-19, até mais. Ela é também um facilitador para se conectarem a seu ecossistema”, disse Bansal.
Rodrigo Dienstmann, que está faz sete meses no Brasil como presidente da Ericsson para o Cone Sul da América Latina, já tem lidado com isso no seu dia a dia. Ele diz que cada cliente tem seu próprio plano de como vai investir e monetizar o 5G, mas alguns pontos são comuns, independentemente de grandes corporações ou novos mercados. “O 5G vai ser crucial, principalmente para melhorar o desempenho de metas no curto prazo, ou automatizar indústrias em áreas como agricultura, serviços públicos, saúde e educação”, afirmou. “Quanto mais rápido forem, mais competitivos ficarão.”
A coluna vertebral desses investimentos é composta por torres, gabinetes e baterias e isso pode ser reutilizado da infra de 4G. Bansal está otimista: “Podemos aplicar a regra de ouro de 20/80: somente 20% dessa infraestrutura será nova, com substituição de equipamentos de rádios para 5G”, disse.

RELAÇÃO COM CHINA Não é a toa que o Brasil tem uma das quatro fábricas da Ericsson no mundo, desde 1955 — em março de 2021 ela inaugurou sua linha de produção 5G, que além de servir os clientes locais, exporta rádios da tecnologia para Estados Unidos, Ásia, América Latina e Europa.
Com 109 redes comerciais já ativas em 5G em 48 países, e fabricando equipamentos de telefonia móvel e fixa, a Ericsson fechou 2021 com um crescimento orgânico de 4%. Se não fosse pela China, teria alcançado 8%. O país pode ser bom em criar condições para implementar tecnologias, mas tem mão de ferro em algumas questões. “Ela decidiu diminuir nosso market share significativamente.
Tínhamos de 10% a 11% no primeiro round do 5G. No último round, desceram nossa margem abaixo de 3%. Temos de respeitar essa decisão”, afirmou Bansal. Vale acrescentar que a atitude teria sido uma retaliação contra a decisão de reguladores suecos que queriam banir empresas chinesas da rede de 5G do país, alegando risco para a segurança nacional.
Apesar das vendas da Ericsson terem ficado estáveis em US$ 25 bilhões em todo o mundo, o lucro anual teve alta de 30% (US$ 2,4 bilhões), com margem Ebit em 2021 de 13,9%, atingindo a meta da empresa. Para 2022 a mira é entre 12% e 14%. A empresa quer permanecer na liderança sob dois aspectos.
“O primeiro é o da tecnologia, pois investimos 40 bilhões de euros em pesquisa e desenvolvimento no mundo e essa é uma indústria que cresce a passos rápidos”, disse Bansal. O segundo é ser mais competitivo que a concorrência. “Temos forte presença em todos os países e entregamos projetos com rapidez, qualidade. A recompensa é marketshare e liderança global.”
O 2G, o 3G e o 4G visavam um único segmento, o dos consumidores comuns. O 5 será o mais rápido G e seu flerte maior será com os negócios, foco da Ericsson para 2022. O setor se beneficiará da velocidade e baixa latência. Mas a cada dez anos surge um novo G.
O 5 veio em 2020 e o próximo passo, o 6G, virá, com boa dose de previsão certeira, em 2030, segundo Bansal. “Será uma tecnologia para a Internet dos Sentidos, a Internet das Emoções. E algo que vai girar em torno do dito Metaverso”, afirmou.
