17/07/2015 - 13:00
Poucos mercados acompanham de forma tão intensa os solavancos da economia quanto o de vale-refeição. As companhias que administram esse tipo de serviço participam de uma iniciativa do governo federal chamada Programa de Apoio ao Trabalhador (PAT). Criada na década de 1970, ela permite às empresas oferecerem aos funcionários, além do salário, um valor destinado à compra de refeições ou alimentos e descontá-lo do imposto de renda. Atualmente, mais de 19 milhões de trabalhadores possuem o benefício, oferecido por cerca de 215 mil empresas.
A questão é que, para as prestadoras do serviço, se o desemprego cresce, mesmo mantendo o cliente, o faturamento cai, pois suas receitas provêm do número de funcionários atendidos. “Não há como escapar, se há demissão, nós perdemos dinheiro”, afirma Eduardo Gouveia, presidente da Alelo, líder do setor, com 30,18% de participação de mercado. Desde o início do ano, foram fechadas mais de 500 mil vagas de trabalho no País, segundo dados do IBGE. A taxa de desemprego chegou a 6,7% em maio, o maior valor em cinco anos. Para não embarcar nesse trem rumo à crise, a Alelo, joint venture entre o Banco do Brasil e o Bradesco, que herdou a base de clientes da extinta Visa Vale, decidiu fazer algumas mudanças na forma de atuar.
O foco mudou das vantagens tributárias do serviço para os ganhos de produtividade. Atualmente, a empresa quer se posicionar como uma consultoria corporativa, especializada em gestão de pessoas e alimentação. “Funcionário bem alimentado trabalha melhor”, afirma Gouveia. Vale até oferecer suco natural. Essa preocupação está transformando a Alelo, cuja base de cartões emitidos gira em torno de 5,3 milhões, em uma empresa parecida com um programa de fidelidade. Não por acaso, Gouveia, que assumiu o comando no final de 2013, é ex-presidente da Multiplus, empresa de fidelidade oriunda do programa de milhagem da TAM.
De acordo com o executivo, o faturamento da Alelo vem de duas frentes: das empresas clientes, que pagam pela emissão dos cartões, e dos estabelecimentos, que pagam uma taxa para cada transação efetuada. Em um cenário de alta do desemprego, que gera uma queda no número de cartões emitidos, o desafio é aumentar a receita proveniente do uso, e também a base de companhias que utilizam seus serviços. “Só o benefício fiscal não basta”, diz Gouveia. Desde o início do ano, a Alelo tem atuado como uma consultoria. A ideia é de que seus clientes possam reduzir os custos com gestão de seus empregados, entre outras coisas.
Assim como a Multiplus, que faz o meio de campo entre empresas e consumidores, a Alelo quer fazer o mesmo com as empresas e seus funcionários. Os novos serviços oferecidos extrapolam o segmento da alimentação. Eles incluem a gestão das despesas com transporte, a oferta de vales-cultura, que dão acesso a cinemas e museus, e até atendimento psicológico aos funcionários das empresas contratantes. À exceção do atendimento psicológico, os demais serviços utilizam a mesma plataforma tecnológica de cartões presente no negócio tradicional de vale-refeição.
A diversificação, no entanto, não significa que o ramo da alimentação está sendo negligenciado. A Alelo lançou, inclusive, um programa para melhorar a alimentação dos trabalhadores. Clientes que aderem à iniciativa têm direito a uma máquina de suco natural, desenvolvida por uma empresa de Campinas, no interior de São Paulo, apelidada de “nespresso do suco”, além de uma geladeira tipo vending machine, abastecida com sanduíches naturais, e dicas de alimentação do nutricionista Marcio Atalla.
Com esse tipo de serviço, a Alelo espera ampliar a base de clientes, uma tarefa complicada numa economia em marcha-a-ré, uma vez que quase a totalidade das grandes companhias já oferece vale-refeição aos funcionários. Segundo pesquisa da consultoria americana Towers Watson, especializada em gestão de pessoas, esse porcentual chega a 95% das companhias no Brasil. Ou seja, para ganhar mercado, é preciso “roubar” clientes dos concorrentes. Mais de 80% desse mercado no Brasil é dividido entre Alelo e as francesas Sodexo e Ticket.