14/11/2014 - 15:00
Quando a americana GE anunciou, em 2011, seu plano de investir US$ 250 milhões na construção de um centro de pesquisas e desenvolvimento no Rio de Janeiro, o Brasil parecia outro em comparação com o atual. O PIB vinha crescendo a um ritmo de 7,5% ao ano, as descobertas do pré-sal estavam fervilhando e a forte expansão do consumo interno prometia um cenário promissor. Mas não foi isso o que aconteceu. Não apenas aquele ambiente de crescimento chinês ficou para trás como os dois principais parceiros e clientes da GE na promissora área de petróleo, a Petrobras e o grupo EBX, do empresário Eike Batista, entraram em dificuldades.
A previsão inicial era de que o Centro de P&D fosse inaugurado em 2012. No entanto, depois de uma série de adiamentos, a faixa inaugural foi cortada somente agora, num contexto completamente diferente. Na quinta-feira 13, o CEO mundial, Jeff Immelt, e outros dos principais executivos do primeiro escalão da companhia se reuniram na Ilha do Bom Jesus, na Baía de Guanabara, para conhecer o complexo tecnológico, enfim, pronto. O Brasil atual encara um crescimento que deve ficar em menos de 0,4%, neste ano, e ainda briga contra a inflação.
Quanto à Petrobras e à EBX, o buraco ficou ainda mais embaixo. Investigações de corrupção e processos de falência, respectivamente, rondam as duas empresas. Otimista inveterado, o CEO Immelt afirma, no entanto, não estar preocupado com a situação atual do País. “Tendemos a olhar para o longo prazo, pois acreditamos na região, que ainda terá um bom crescimento e possui recursos naturais”, diz Immelt. “Estamos comprometidos com o setor de óleo e gás, e com a industrialização do Brasil.” Como prova desse compromisso, a GE anunciou que vai dobrar o investimento no centro recém-inaugurado, totalizando US$ 500 milhões até 2020.
O resultado da primeira parte do investimento é um moderno e espelhado prédio localizado no Parque Tecnológico da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), construído num terreno de 24 mil m2, que pertencia às Forças Armadas. O centro poderá abrigar até 400 pesquisadores – 140 já atuam no local – com quatro laboratórios especializados em petróleo, software, eletrificação e bioenergia. A mais importante delas é a de petróleo e gás, com tecnologias que serão utilizadas na complexa exploração do pré-sal. Também funcionará no local uma unidade da Crotonville, no Estado de Nova York, a universidade corporativa da GE, pela qual passaram 12 presidentes mundiais da companhia.
“O centro será direcionado aos clientes, de acordo com as suas necessidades”, afirma Mark Little, vice-presidente global de pesquisas. “O retorno do investimento virá com a criação de produtos que eles se interessarem em comprar.” A iniciativa demonstra o interesse da empresa que inventou a lâmpada incandescente e a turbina de jato em continuar aprimorando sua cultura de inovação. “Creio que estamos sendo fiéis a nossas origens e às ideias de nosso fundador”, diz Reinaldo Garcia, presidente da GE para a América Latina.
Afinal, foi Thomas Edison quem teve a ideia de construir um centro de invenções. Criado em Niskayuna, no Estado de Nova York, em 1900, a unidade foi precursora dos modernos centros de pesquisas corporativos, permanecendo por um século como o único da empresa. Foi só depois do ano 2000 que a GE começou a investir em centros fora dos EUA. O brasileiro é o quinto deles e o primeiro no Hemisfério Sul. Com eles, a sua capacidade de inovação se ampliou. A GE possui 47 mil patentes válidas, enquanto o Brasil detém apenas 41,5 mil. “Vamos fazer a nossa parte para ajudar o País a melhorar nesse quesito”, diz Little.
Por ora, o investimento da GE já teve impactos positivos para a cidade do Rio de Janeiro. “Chamou a atenção da L’Oréal e a AB Inbev, que também instalarão centros aqui”, afirma o governador recém-eleito do Rio de Janeiro, Luiz Fernando Pezão. De fato, depois de divulgados os planos ambiciosos da GE, uma série de empresas optaram por estabelecer centros próprios no Parque Tecnológico da UFRJ. A expectativa é de que haverá 200 companhias instaladas no local até 2017. A maior parte delas está voltada para o setor de petróleo e gás. A despeito da economia e dos problemas da Petrobras e de Eike Batista.