09/08/2013 - 21:00
Desde a primeira sexta-feira de agosto, uma senhora de 51 anos tem passado os dias fechada no quarto, em uma cobertura no bairro do Sion, um dos mais nobres de Belo Horizonte. Não há visitas. Os empregados não transferem telefonemas externos. A religiosa caminhada semanal aos sábados na praça Juscelino Kubitschek, localizada a 500 metros dali, já não acontece. Kátia Rabello, presidente do Conselho e principal acionista do Banco Rural, liquidado pelo Banco Central (BC) às 19 horas do dia 2, trancou-se em casa e de lá não mais saiu. Deprimida, calou-se após ver fracassar seus esforços para pagar credores e funcionários do Rural e, se possível, salvar o patrimônio da família.
Sabino e Kátia Rabello: liquidação do Rural encerra a trajetória da polêmica instituição financeira.
Do banco mineiro, que chegou a ser um dos 20 maiores do País, só restou a sede em Belo Horizonte,
fechada com tapumes e com vidros quebrados por vândalos (à esq.)
“Quero pagar até o último centavo do que o banco deve”, era uma de suas frases frequentes nas inúmeras reuniões de que participou com advogados, representantes do BC e do Fundo Garantidor de Crédito (FGC). Em vão. Bióloga por formação, bailarina por vocação e banqueira por obrigação familiar, Kátia enfrenta seu pior momento. Caçula de três irmãs, ela foi guindada ao comando do Rural em 1999 pelo fundador Sabino Rabello, seu pai. O motivo foi trágico. A irmã mais velha Júnia, que chefiava o Rural, foi morta pela hélice de um helicóptero do banco na cidade mineira de Sabará, na região metropolitana de Belo Horizonte. Kátia nunca se entusiasmou com a função.
“No banco, minha irmã sempre foi a doutora Júnia, mas eu sou a Kátia”, disse ela. À vontade no palco, quando dançava na companhia que fundou, a Primeiro Ato, Kátia teve de descalçar as sapatilhas e presidir um banco que mal começava a superar o abalo do escândalo que derrubou Fernando Collor da Presidência em 1992. Para recuperar a imagem, Sabino havia transferido o comando a Júnia, que reformulou e profissionalizou o Rural. O acidente ocorreu quando os primeiros frutos começavam a ser colhidos. Em 2004, o Rural chegou a ter um patrimônio de R$ 700 milhões, 87 agências e 2.200 funcionários. Hoje, a sede no centro de Belo Horizonte tem vidros quebrados e tapumes para esconder as marcas do vandalismo que sofreu durante as manifestações contra a alta de tarifas.
A imagem representa bem a situação do banco. O saneamento não sobreviveu a Júnia. A família Rabello sempre foi próxima dos políticos. “Papai contava que, quando era candidato a prefeito de Belo Horizonte, Juscelino ia lá em casa, tirava os sapatos e perguntava à mamãe se tinha carne moída na geladeira”, disse Kátia. Como JK, muitos políticos mineiros pediam a bênção – e favores – aos Rabello. Em 2004, ao discursar em um evento do banco, o então governador Aécio Neves disse que o Rural era “um dos orgulhos de Minas”. A amizade trouxe vantagens e se misturava com os negócios. O Rural foi um dos principais receptores dos recursos levantados ilegalmente por Paulo César Cavalcanti Farias, tesoureiro de Collor.
Era de suas contas-fantasma que saía o dinheiro para pagar as despesas do ex-presidente. Duas décadas mais tarde, o julgamento do mensalão conduzido pelo Supremo Tribunal Federal (STF) provaria que o Rural forjava empréstimos para justificar as transferências de recursos com os quais o governo garantia o apoio da base aliada, o chamado mensalão. Os ministros do STF condenaram Kátia a 16 anos e oito meses de prisão por quatro crimes: lavagem de dinheiro, evasão de divisas, formação de quadrilha e gestão fraudulenta. Seu envolvimento é inquestionável. Sua assinatura era a última das quatro necessárias para que os assessores de políticos da base aliada, a exemplo de Roberto Jefferson, do PTB, entrassem em agências do banco como a da rua Sergipe e descontassem cheques vultosos emitidos pela empresa do publicitário Marcos Valério.
VENDA FRUSTRADA A indicação de Kátia para a presidência coincidiu com dois outros obstáculos, a morte de José Augusto Dumont, principal executivo operacional do Rural, e o início das investigações do mensalão. Com a imagem novamente comprometida e enfrentando um cenário adverso para os bancos médios com a quebra do Banco Santos, em novembro de 2004, o Rural foi perdendo depósitos. Isso o obrigou a um duro processo de ajuste. O banco cortou agências e cargos a partir de 2006. Ao ser liquidado, contava com 26 agências e 577 funcionários. Sua importância também encolheu. Em 2004, o Rural representava 0,44% dos ativos bancários brasileiros. Segundo o BC, no dia da intervenção essa fatia havia caído para 0,07%.
“O banco perdeu depositantes, emprestou menos. Isso afastou os clientes e acabou criando uma espiral da morte”, diz o administrador de empresas carioca Luiz Eduardo Franco de Abreu, CEO da corretora e distribuidora de valores NSG Capital. Fundada por Abreu, ex-presidente do Banco de Brasília e ex-vice-presidente de finanças e mercados de capitais do Banco do Brasil, a NSG é uma empresa de investimentos pouco conhecida. Seus fundos de private equity possuem, entre outros ativos, 30% do capital da churrascaria Porcão. A NSG foi contratada pelo Rural no fim de 2012 para estruturar uma emissão de debêntures de R$ 400 milhões. Segundo executivos do banco que acompanharam o processo, a ideia era usar os recursos para cobrir uma parte do rombo, estimado em R$ 1,2 bilhão. O dinheiro viria de três fontes.
Ligações perigosas: a proximidade de políticos como Roberto Jefferson
arranhou a credibilidade do Banco Rural
Além das debêntures, outros R$ 400 milhões sairiam do Fundo Garantidor de Crédito e os R$ 400 milhões restantes seriam depositados pela família Rabello – que já havia injetado R$ 750 milhões no Rural – ou por um novo acionista, eventualmente a própria NSG. Os planos fracassaram porque o Rural não publicou os resultados do terceiro trimestre de 2012. “Sem demonstrações contábeis, não fomos capazes de encontrar investidores”, diz Abreu. Com isso, a NSG passou a analisar os livros do banco para encontrar um comprador. O destino do Rural seria selado na quinta-feira 25 de julho, quando Abreu teve uma reunião decisiva com os técnicos do BC que acompanhavam a situação do Rural.
Lá ele os informou que boa parte dos ativos que o banco contabilizava iria demorar para ser recebida. Eram R$ 360 milhões em créditos fiscais e pouco menos de R$ 400 milhões a receber como resultado de uma ação contra o pagamento de PIS/Cofins. “Nossos auditores nos advertiram que esses recursos teriam de ser excluídos do balanço, o que deixaria o banco com o passivo a descoberto”, diz Abreu. “Nós informamos o BC disso. Os técnicos não falaram nada, mas uma semana depois o banco foi liquidado.” O passivo a descoberto pode ser de R$ 300 milhões. A conta com o FGC está em R$ 1 bilhão. O Fundo terá de ressarcir R$ 800 milhões aos detentores de papéis com garantias especiais, o chamado DPGE, e mais R$ 200 milhões em garantias ordinárias.
A quebra do Rural provocou prejuízos para alguns investidores. Um fundo da gestora carioca Drachma, o Diferencial Renda Fixa, possui R$ 32,8 milhões em CDBs do Rural. O BNY Mellon, administrador da carteira, divulgou uma queda de 8,3% na cota do fundo na segunda-feira. O fim do Rural encerra de vez um capítulo na história bancária brasileira. Envolvido em todos os escândalos da República nas duas últimas décadas, do esquema Collor ao mensalão, o banco sempre se recuperou. Agora, o saneamento do sistema financeiro e o aumento das exigências de reguladores e investidores tornaram esses comportamentos – e os bancos que os praticam – inviáveis.
Colaboraram: Cláudio Gradilone e Denise Bacoccina