05/09/2012 - 21:00
A batalha mais difícil de Barack Obama começou na semana passada, quando a Convenção Nacional Republicana apresentou, oficialmente, o ex-governador de Massachusetts Mitt Romney e seu vice, Paul Ryan, como candidatos à disputa pela Presidência dos Estados Unidos. Se a vitória democrata, em 2008, foi conquistada depois de um desgastado segundo mandato do republicano George W. Bush, neste ano o ônus do desgaste é do próprio Obama. O candidato à reeleição para a Casa Branca teve a árdua missão de administrar os efeitos da hecatombe financeira gerada pela quebra do banco Lehman Brothers, em setembro de 2008, que levou o país à pior crise econômica desde os anos 1930, herdada de seu antecessor.
Festa em tampa: delegados republicanos celebram Romney, que usa a família para mostrar lado humano
Aos olhos de metade dos eleitores, Obama não foi bem-sucedido em virar o jogo. É essa frustração que está sendo explorada por Romney, 65 anos. Nem mesmo o furacão Isaac, que adiou a abertura do encontro de segunda para a terça-feira 28, prejudicou a convenção, realizada em Tampa, no Estado da Flórida, decisiva para começar a mudar o placar. Os dois oponentes aparecem praticamente empatados nas pesquisas, com cerca de 43% dos votos cada um. Embora tenha sido governador de Massachusetts, Romney enalteceu seu passado como empresário para convencer o eleitorado de que conhece, mais do que ninguém (leia-se Obama), a fórmula para recuperar a economia. “O presidente Obama está levando o país na direção errada porque ele não é um homem de negócios”, disse o candidato, na quinta-feira 30.
“Eu tenho um plano para criar 12 milhões de empregos!” Romney anunciou os cinco passos para atingir isso: autossuficiência energética, incentivos para quem quer investir no país, capacitação de jovens, redução de tributos para pequenas empresas e fortalecimento do comércio exterior. As mensagens de Romney têm um forte apelo para uma nação com taxa de desemprego superior a 8%, há três anos seguidos, e que se arrasta com um mirrado crescimento do PIB (1,7% no segundo trimestre). Mas vestir o figurino de paladino das boas notícias é fácil. Difícil é ganhar terreno nas searas em que Obama, muito mais carismático, é favorito. A convenção da semana passada foi organizada estrategicamente na Flórida, onde cerca de 23% da população é de origem latina e votou em massa em Obama em 2008.
Mais empregos: Romney, com a mulher, Ann, e seu vice, Ryan, com a esposa,
Janna, são ovacionados na Flórida
Orientado por Karl Rove, o cérebro por trás dos dois mandatos do ex-presidente George W. Bush, Romney suavizou as posições xenófobas dos republicanos para ganhar pontos entre os imigrantes estrangeiros. Criar uma figura mais simpática é fundamental para vencer no dia 6 de novembro. A estratégia é descolar Romney do rótulo de homem rico – fundador da consultoria Bain Capital, ele é dono de um patrimônio de US$ 250 milhões. Nos três dias da convenção, o partido apelou para o lado mais humano do candidato. Apresentou sua mulher, Ann, e os cinco filhos e netos, além de detalhes da sua religião mórmon. “Nosso princípio é o amor incondicional”, disse Romney.
Mas outros pontos sensíveis para a sociedade americana também foram explorados. O vice Paul Ryan foi incisivo na crítica à gestão financeira de Obama. “Eles tiveram quatro anos para resolver os problemas”, disse. Ryan, 42 anos, foi escolhido a dedo. Deputado por Wisconsin, presidiu a Comissão de Orçamento da Câmara dos Representantes dos EUA. A redução de gastos será uma obrigação para quem assumir a Casa Branca. A ambição dos republicanos de retomar o papel de superpotência global para os EUA passa por uma política comercial mais agressiva, o que, na prática, pode vir até a beneficiar países como o Brasil.
“Ampliar o comércio exterior com continentes como a América Latina, significa criar mais empregos para os Estados Unidos”, diz Eric Farnsworth, vice-presidente do Fórum das Américas, dedicado aos debates de grandes temas do continente. “Essa é uma área na qual o presidente Obama não apresentou tão bons resultados.” Para o Brasil, cujas exportações para o mercado americano cresceram 15% entre janeiro e julho deste ano, há muitas oportunidades, independentemente do partido vitorioso, avalia Gabriel Ricco, presidente da Câmara de Comércio Brasil Estados Unidos. “As relações entre os dois países estão cada vez mais sólidas”, diz Ricco. Se o furacão Romney não for rebaixado para uma simples tempestade na reeleição de Obama, muito pode mudar no comércio entre brasileiros e americanos.